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junho 30, 2005
Silêncio! Há exames
noventa por cento destes alunos querem ir para Medicina, murmura a minha colega.
É a prova de Biologia.
Porque será?
O prestígio da profissão, acho eu.
Quantos alunos, das nossas turmas, com nota de catorze teriam mais capacidade de serem bons médicos!, suspiramos as duas.
A vocação não tem peso específico na avaliação de competências para as profissões. Daqui a 8-10 anos sairá esta fornada de bons estudiosos, capazes de nos mandar fazer 14 análises e 5 exames complementares de diagnóstico, para nos receitar 3-4 remédios, sem quase nos olhar nos olhos e sem escutar nada para além das duas primeiras frases que pronunciámos.
Penso, e sinto um calafrio. Desumano, é isso! O médico a despachar doentes com a eficácia do caixa do supermercado. Automático, gestual, atira-nos os produtos que enfiamos à pressa para dentro dos sacos pingo-doce. Veja lá se tem trocado pede sem nos ver, medindo no tamanho da fila que espera, o quanto ainda tem que despachar.
Bolas, enganei-me na manteiga. Trouxe margarina. Que chatice, não dá para ir trocar!
Quanto tempo falta?
Olho o relógio:
45 minutos.
Professora, outra folha!
Publicado por inesf às junho 30, 2005 02:43 PM
Comentários
Andava eu a cogitar no problema da vocação e, num simples exercício de retórica, ocorreu-me o seguinte: de repente, muito de repente, os médicos passam a ganhar, em termos médios, um vencimento equiparado ao vencimento de um professor; num ápice, a corporação médica é incapaz de garantir emprego a todos os recém-chegados à profissão porque o acesso às faculdades de medicina teriam os mesmos entraves que o acesso às licenciaturas direccionadas ao ensino [isto é, nenhuns!] e, por via disso, os srs. Doutores de medicina engrossam as listas dos centros de emprego; numa batalha tresloucada a imprensa e o governo exploram as derrapagens financeiras do sector da saúde e passam a concentrar nos profissionais o ónus da culpa pela despesa incontrolada.
Publicado por: Miguel Pinto às junho 30, 2005 07:18 PM
Está bem pensado! muito bem mesmo; há alturas na vida em que a gente se põe a ver claro.
Publicado por: Inês às junho 30, 2005 10:05 PM
Inês, o Miguel acabou de descobrir um assunto a tratar num próximo livro de Saramago: E se um dia... tantos Doutores (Médicos)?
Bem, estou a ironizar e imaginar, mas só a ideia iria levantar mais um rol de demagogias e falácias políticas entre a(s) nossa(s) seita(s)
parlamentar(es).
Publicado por: Jorge às julho 1, 2005 12:06 AM
Escrevi já há muito tempo ( lá para Janeiro ou coisa assim, não consegui encontrá-lo para mandar o link)um post no Afixe, sobre o filme "A Melhor Juventude" onde dizia exactamente o que dizes aqui. Falava do FACTOR S, que um professor de um aluno de medicina, somava aos conhecimentos científicos do aluno e o S=simpatia. Ou seja a capacidade de "empatizar" com o doente. No caso ( viste o filme?) o aluno, que se tornava um excelente médico, foi beneficiado pela inteligência desse professor que o soube valoriozar.
Por cá vamos ter uns bons investigadores, sem dúvida, mas não sei como é o factor S...
Publicado por: Emiéle às julho 1, 2005 11:34 AM
Dinheiro e prestígio... Séries de televisão... Ou seja, estamos a formar 89% de frustados, dado que desses apenas 1% conseguirá efectivamente as médias (e verbas) para pagar um curso de medicina.
Publicado por: Rui Martins às julho 3, 2005 11:57 AM
Ouviram, por aí, falar em escola inclusiva? Alguém a reconhece?
O Rui disse bem: Um aluno que entra em medicina é o troféu da escola. Tenho colegas que não se coíbem em afirmar orgulhosamente: “Colocámos o aluno X em Medicina”. Eu canso-me de perguntar e ninguém me responde: quem foi o último aluno que colocámos na fábrica de sapatos ou na construção civil ou em lado nenhum?
Publicado por: Miguel Pinto às julho 3, 2005 10:33 PM
Boa pergunta, Miguel!
A nós 'apenas' cabe alimentar cada aluno, entre todos os alunos, com o máximo de conhecimentos; desenvolver-lhe competências de trabalho individual e em grupo, torná-lo autónomo e exigente consigo próprio.
Quando nos atribuem outras responsabilidades, só fazem com que tenhamos que negligenciar as que nos são fundamentais.
Publicado por: Inês às julho 4, 2005 01:14 AM
Autónomo? nós bem tentamos, mas os pais teimam em contrariar os nossos esforços :(
Damos a faca, o garfo, ensinamos a cortar o bife... e lá vem a mãezinha desatinada, de prato na mão e com os alimentos já quase mastigados, prontinhos a enfiar pela boca do "crianço" de 12 anos... que, quer queira ou não "há-de ser médico!!"
Publicado por: galgaveloz às julho 5, 2005 02:26 PM
