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março 18, 2006

pesquisas como cerejas

A rua fica entre dois largos, o do Pé da Cruz e o de São Francisco. Zona bonita, algumas casas guardam dignidade ainda no abandono desabitado. Em todo o caso têm identidade, coisa que falta nas ruas sem etiqueta da nova Faro.

Em busca de Manuel Penteado a pesquisa levou-me a este episódio da vida de Rafael Bordalo Pinheiro, seu amigo. Fascinada pelo sítio, por aqui me fico com Bordalo. O poço que ri, chama-lhe Joaquim Leitão.

"À meia-noite saíamos e o Tavares ficava deserto.

Aí íamos em bando, acompanhar o Pai Bordalo a casa, mas dali do Tavares, na Rua do Mundo, a casa de Rafael, no Largo da Abegoaria, nunca levávamos menos de três horas.

Sem noção do tempo, Rafael Bordalo continuava a conversar, a rir, a fumar, a fazer caricatura oral, mal se resignando com a debandada quando começava a amanhecer.

Nunca chegava a casa no mesmo dia como nunca chegou ao teatro a tempo de assistir ao primeiro acto de uma peça. Sucedia mesmo e frequentemente, vestir-se de casaca para ir a S. Carlos, e quando descia o Chiado já encontrar o público a sair do teatro.

Cavaqueador infatigável, ficava-se à mesa a cavaquear com a família. A conversar e a tomar o café, que era revestido de rigoroso ritual: feito numa máquina de metal branco, diante do oficiante, e tomado em xícaras minúsculas, como se usa no Brasil. Bordalo que exigia vê-lo passar, acabava por o tomar frio, acompanhado de cálices de aguardente também muito pequenos.

O fim do jantar entrava, pois, pela noite dentro, e o regresso a casa pela aurora.
Por mais que a nossa ternura o quisesse poupar a noitadas, Bordalo não transigia.

Já muito no fim, uma noite estávamos no Tavares alguns dos amigos do costume: Ciríaco de Cardoso, João Chagas, o cantor António Andrade, Manuel Gustavo, Alfredo de Mesquita, Manuel Penteado, Augusto Pina, o Jorge Cid, às vezes Fialho, outras o João Saraiva, grupo numeroso que obrigava a juntar duas mesas; Bordalo conversava, ria, e num acesso de tosse mais violento ficou roxo, pendeu-lhe um pouco a cabeça, que um de nós segurou."

Publicado por inesf às março 18, 2006 03:06 PM

Comentários

Eis o que perdem os americanos com a sua mania de nomearem as suas ruas por números...

Publicado por: Rui Martins às março 18, 2006 11:55 PM

Que bonito o título! É tal e qual assim, as pesquisas muitas vezes vêm encadeadas, uma coisa sugere a outra, e outra, e outra...

Publicado por: Emiéle às março 19, 2006 12:28 PM

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