« A gralha DN-domingo | Entrada | o buraco suspenso »

abril 05, 2006

a carta

«Tivemos várias fases no Tarrafal. Quando chegámos tinhamos um regime que era muito livre fisicamente e muito mais apertado psicologicamente. Nesse tempo nem o jornal A Bola entrava, não tinha qualquer espécie de jornais e os livros eram só os de estudo do primeiro ou segundo ciclos que cada um frequentasse. Um isolamento completo.

A correspondência, está claro, era toda censurada. O chefe dos guardas chegava ao requinte de cortar a palavra «beijos», quando imaginava que era uma sigla, isso soube-se porque uma das cartas enviadas foi devolvida ao remetente. Como tinha saído e sido censurada eles entregaram-na novamente sem abrir. Foi aí que o preso pode ver que tipo de censura era feita à sua carta.

Esse chefe de guarda era um sádico: jogava exactamente nesse carácter da tortura psicológica. Nós sabiamos que quando chegava o correio as cartas eram carimbadas com o carimbo de censurado. Portanto quando ouviamos no gabinete dele o carimbo a bater, sabiamos que havia correio.

Ora, se de manhã se batia com o carimbo, nós ficávamos todo o dia na expectativa de receber uma carta da família. Por vezes era ele que batia o carimbo num jornal velho, de propósito, para nos fazer estar o dia inteiro a sofrer.

Às vezes levava o requinte a outro tipo: nós víamos as cartas, ele mandava-nos chamar por qualquer motivo ao gabinete, viamos a carta que era para nós em cima da secretária, que ele punha à vista, nós saíamos e cada vez que ele aparecia à porta do gabinete pensávamos: é agora, é agora. E quando já estávamos na caserna ele abria a portinhola e dizia: fulano de tal; e, claro, a pessoa corria logo para receber a carta. Aí ele dizia: a senhora fulana de tal é sua esposa? Muito obrigado, é para fazer o registo. Tornava a fechar e ia-se embora com a carta. »

Luandino Vieira, 39 anos [em 74], nasceu ao pé de Fátima, e foi entrevistado na Vida Mundial de 3 de Outubro do Ano da Liberdade. Dessa entrevista recortei este excerto. Contra o esquecimento.

Imagem do Tarrafal, copiada de agualisa3.blogs.sapo.pt/

Publicado por inesf às abril 5, 2006 09:31 AM

Comentários

Nunca é demais fazer estes registos "contra o esquecimento". O fundo sádico dos tipos que eram escolhidos para estas funções não era por acaso, a pena não era a prisão, ou ausência de liberdade era muito mais do que isso, era sofrer todas estas humilhações.

Publicado por: Emiéle às abril 5, 2006 01:15 PM

e ainda há uns atrasados mentais com saudades desses tempos...

Publicado por: hammer às abril 6, 2006 04:03 PM

Comente




Recordar-me?