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maio 04, 2006
Eles deixarão passar isto?
“O mal não está apenas no que a censura proíbe
mas também no receio do que ela pode proibir.”
Até 1935, os censores, embora intervindo, de quando em quando, na literatura, faziam-no sobriamente.
Daí em diante, porém, escrever um romance em Portugal era uma espécie de auto-suplício, desde que não se tivesse a mentalidade da situação dominante. E a verdade é que a grande maioria dos romancistas portugueses não a tinham nem a tem.
Para escrever conforme os cânones da censura, o romancista devia fingir ignorar todas as grandes inquietudes do homem do nosso tempo e escrever uns romances convencionais, deslocados da sua época, uns romances sujeitos a tantas restrições, que seria fastidioso enumerá-las todas aqui, tanto mais que elas são bem conhecidas.
Escrever assim é uma verdadeira tortura. Porque o mal não está apenas no que a censura proíbe mas também no receio do que ela pode proibir. Cada um de nós coloca, ao escrever, um censor imaginário sobre a mesa de trabalho – e essa invisível, incorpórea presença tira-nos toda a espontaneidade, corta-nos todo o élan , obriga-nos a mascarar o nosso pensamento, quando não a abandoná-lo, sempre com aquela obsessão: «Eles deixarão passar isto?».
Acontece, às vezes, que nós nos sentimos puerilmente ricos, compensados de todos os esforços, só porque encontramos um conceito original, uma frase de bom talhe, uma cena bem traçada. Vamos, depois, a reler e verificamos que temos de nos despojar dessa pequena riqueza literária, que constitui a verdadeira recompensa de quem escreve, porque ela entrou, mesmo sem o querermos, em domínios proibidos. E – zás – toca a cortar, a substituir, a mastigar, a estragar!
Eu não desejo aos que têm ideias diferentes das minhas, e que escrevem, uma tortura como esta que tem sido infligida aos escritores que não pertencem à actual situação politica.
Diário de Lisboa , Sábado, 17 de Novembro de 1945
O MOMENTO POLÍTICO
Publicado por inesf às maio 4, 2006 09:41 AM
Comentários
Não sei se ainda conseguimos imaginar.Urgente, não esquecer.
Urgente, lembrar.
Sempre
Publicado por: teresa frazão às maio 4, 2006 11:43 PM
Há tanto para não esquecer. Tanto para aprender... Abri uma velha revista de Abril de 67; num diálogo com Ferreira de Castro 'montes' de coisas importantes que descobri. Procurei 'Ferreira de Castro' no Google. Tanta coisa feita. Interessante e mágica a internet.
Publicado por: Inês às maio 5, 2006 01:38 AM
Obrigada por este post, Inês.
É que esquecermos, é colaborar com "eles".
Publicado por: Emiéle às maio 5, 2006 07:00 PM
É exactamente isso que sinto, Emiéle. Continuo na onda dos 'balões'. Como tu que lanças tantos. Quando alguém vem e lhes dá um toque, eles continuam no ar. :))
Publicado por: Inês às maio 5, 2006 10:31 PM
