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julho 23, 2006

uma barata!

Como sempre foi visitar Máxima. O quarto é agora muito escuro porque um elefante dorme na cama do lado. Falam baixinho respeitando aquele sono infindável. Penteia-me, pede Máxima. Estás tão linda, mãe!
O elefante acordou sem darem conta. Põe-me os sapatos, disse. Fernanda é uma pessoa doce, incapaz de calçar os sapatos. A minha filha não quer que eu calce chinelos, explica. A visitante calça-lhe os sapatos com alguma dificuldade. Os pés disformes não gostam dos atacadores que oprimem, pisam e marcam. Fernanda sorri e desaparece.
É tarde para abrir as janelas. Quase hora do lanche! avisa Máxima. É então que o coração estala de dor! Uma barata esgueira-se numa corrida em cima da colcha, saída da dobra, não se sabe donde
- O que é que tem? Coitadinha, também tem direito à vida... desculpa-se Máxima, com aquele seu sorrisinho cruel.
- Mãezinha, no quarto não! Voltou a trazer coisas do caixote do lixo! Desesperadamente esmagou nos dedos o bicho. Há muito perdeu o direito à repugnância.

Truz, truz! batem à porta e entram. Não consegue recuperar a compostura e cede... Os irmãos estranham-lhe o ar sem alma. Apetece-lhe fugir, escapar! É assim que sempre começam os desentendimentos familiares.

Publicado por inesf às julho 23, 2006 01:51 PM

Comentários

Inês, este tipo de posts são terríveis de comementar mas também é impossível não dizer nada. Uma história tão curta, três ou quatro parágrafos e uma gama tão grande de emoções, da doçura terna do início, à tristeza enraivecida do final. Se fosse só uma história era um excelnete exercício literário. O que doi é que pelos nomes adivinho que não é «apenas uma história».
Um abraço, Inês.

Publicado por: Emiéle às julho 23, 2006 09:35 PM

Um beijo pela tua atenção.

Publicado por: Inês às julho 23, 2006 10:48 PM

o tempo é cruel, desgasta-nos, tira-nos o tino e expulsa-nos para horizontes impensáveis...

Publicado por: hammer às julho 23, 2006 11:28 PM

Obrigada, hammer. É mesmo.

Publicado por: Inês às julho 23, 2006 11:46 PM

Sem entender, percebo que não é um 'conto' e sim uma coisa muito triste da vida. Um grande beijinho.

Publicado por: catarina às julho 25, 2006 05:14 PM

Obrigada, Catarina. É um conto de vida e parece triste, mas não é, não. Tirando o estafermo da barata!!

Publicado por: Inês às julho 25, 2006 11:13 PM

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